Quando descobri a Zara em 2000 pensei ” quem me dera fazer estampados para as roupas da Zara! naaa tu? nunca!”

9 anos depois lá estava eu enquanto designer de uma das maiores empresas têxteis portuguesa e fornecedora do grupo inditex.

Be careful what you wish for ‘cause you might get it! 

Inicialmente adorava mas rapidamente a paixão transformou-se em ansiedade, stress, frustração. Quanto mais os anos passavam mais o fast fashion crescia e se apoderava das nossas almas. Ao fim de 10 anos o meu corpo reagiu ” não paras, paro-te eu! ” e assim de repente fiquei acamada com síndrome vertiginoso; sempre que tentava levantar-me caía. Escusado será dizer que fui forçada a obedecer.

Quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga já dizia o António

poderia falar sobre a minha experiência no têxtil em pormenor mas não é o que me traz cá hoje.

O que me estava a acontecer? a crise dos 40 aos 38? o despertar para a vida? (yep!) perceber FINALMENTE que não era feliz seguindo as normas sociais porque “é assim que se vive” fez-me olhar para a minha vida com angustia e surpresa. Como é que me auto infligi isto? Dois anos de terapia após o episódio ajudaram-me a perceber muito coisa mas na altura estava longe de entender os motivos.

Decidi que bastava, ouvi o meu corpo e concordei com ele, a grande custo mas concordei.

Deixar um emprego remunerado acima da média? loucura

Partir para o desconhecido sem a mensalidade choruda á qual estava habituada correndo o risco de não poder ajudar a minha familia quando precisassem ou de ter de deixar o Porto, cidade que me adotou e amo do fundo do meu ser? irresponsabilidade + loucura


 

Tive que ganhar coragem e deixar a control freak de lado (uiiiiii) e resolvi partir um mês para Bali.

A Ásia sempre me fascinou. Viajei bastante em trabalho mas NUNCA em lazer (ah e tal poupar porque nunca se sabe se um dia preciso ajudar alguém) Mas desta vez pensei em mim ( nunca ninguém me pediu para não o fazer, eu é que pronto. tinha a mania )

“Vais para te descobrires?” bla bla yoga bla bla natureza bla bla mindfulness bla bla

E não é que descobri uma parte de mim completamente ignorada? (re)Descobri que sou sociável, que amo a natureza ( menina nascida e criada em Paris nem sabia o que um gecko era), que o ser humano tem facetas até então desconhecidas para mim, que a generosidade existe e é bela, que as diferenças são utópicas, que posso viver sem maquilhagem, sim sim posso e ainda assim aprender a gostar do que vejo. Aprendi a ver-me com os olhos da minha alma (“és poeta!” eu sei) que mereço o melhor e que o melhor acontece se acreditar que mereço.

Percebi que tinha vivido contra-feita, já o sabia mas ainda não o tinha sentido na pele. O contacto diário com a simplicidade, os sorrisos genuinos (pelo menos pareciam ser), as viagens de mota ao estilo super Mario kart (das quais sinto saudades) a abundância da natureza (quem manda ali não é o betão), as chuvas tropicais, Ubud e a sua selva poderosa, as cachoeiras. Tudo isso renovou células do meu imaginário adormecido.

 

Voltei com sonhos nos olhos e vontade de me conhecer, me perdoar, me respeitar e seguir o meu propósito.

A Arte. Bebi as cores, as formas, os cheiros, a energia, a troca humana daquela ilha encantada.Senti vontade de partilhar os sorrisos que me foram oferecidos diariamente, de aquecer corações como o fizeram com o meu. Pela Arte comunico a um nível universal, retratando a beleza que vejo na singularidade de cada ser, focando nas forças (não vejo as fragilidades das pessoas que desenho nem quero) mostrando aos retratados o que transmitem á minha alma, sem preconceito, abraçando a diversidade. Gosto particularmente de desenhar mulheres, empodera-las. Aquela luta contra o patriarcado estão a ver?

to be continued….